Cotidiano, Todas

A carência e a morte da empatia

Quando se está afim de alguém é uma sensação única, aquele belo sentimento adolescente que faz o estômago ficar com borboletas e o coração acelerar, cada vez que o celular notifica: “é o crush!”. Sua vida ganha um novo sentido fora do seu mundo, você tem uma nova paixão e tudo o que você quer é saber da vida da pessoa, quer estar com a pessoa, falar com ela 24h/dia 7 dias/semana, quer sair com a pessoa e faz o possível para ter a atenção dessa pessoa.

Mas será que a pessoa sente o mesmo?

Aconteceu um caso comigo há alguns anos atrás. Uma pessoa sempre que falava comigo estava sempre mega empolgada, mega feliz, toda hora me chamando para algum lugar, sugerindo algo para fazermos, me mandando mensagens puxando assuntos aleatórios. Eis que caiu a ficha “Ferrou, a pessoa tem crush em mim!” (mentira, naquela época ainda não falávamos crush). Eu não tinha interesse, a pessoa sim, mas quando um não quer dois não brigam, então sigamos com a amizade. Mas parece que só eu segui essa lógica.

Paralela a essa amizade, eu estava saindo com um rapaz na época, a pessoa acima sabia disso. Resumo do dramalhão mexicano, as mensagens da pessoa 1 deixaram de ser apenas sobre assuntos aleatórios interessantes, para mensagens de “eu te amo” e “você TEM QUE me dar uma chance / namorar comigo”, a amizade morreu ali, ela não importava mais, a pessoa só falava sobre sentimentos, beijar e afins. Ela não pensou no que eu queria, no que o rapaz que estava comigo queria, ela só pensou em si e na necessidade de suprir a própria carência.

Percebe o problema dessa situação?

Não raro me deparo com pessoas e situações semelhantes a essa que me aconteceu e um único pensamento domina minha mente “cadê a empatia dessa pessoa? “. Em que momento criou-se a lei que obriga a correspondermos o sentimento do outro? Em que momento deixamos de ter o livre arbítrio de decidirmos nos relacionar ou não com alguém?

O belo sentimento adolescente de excitação é ótimo, mas já parou para pensar no outro lado dessa situação? A pessoa toda hora recebendo diversas mensagens, a pessoa ocupada e você cobrando que ela te responda logo, porque você está apaixonado(a) e quer que a pessoa responda logo. Pior ainda quando a pessoa
manda
uma frase
por linha
para ter mais notificações
e chamar mais a atenção.

Será que o outro gosta disso? Ou você não liga pro que sente desde que você possa estar a todo momento em contato com o seu crush?

Que sentimento é esse que domina a cabeça das pessoas carentes que faz elas perderem totalmente a empatia? Essa necessidade de estar sempre com o outro é realmente amor ou só a busca por preencher um vazio que têm em si?

Segundo a psicologa Katia Vega “Boa parte da população acredita não estar recebendo o amor necessário em sua vida. (…) Ser dependente emocionalmente, acaba gerando cobranças excessiva em relação a outras pessoas, em especial no relacionamento.” Ela complementa Afetividade está em tudo: na comunicação, nas relações, no trabalho, etc. Isso porque todos nós precisamos nos completar com pessoas e situações externas. O problema se dá quando se acredita que isso só será possível se o outro, e somente ele, pode me oferecer afeto, ou seja, eu deposito no outro esta responsabilidade de me completar.”

É nesse momento que morre a empatia do carente. Quando a pessoa passa a acreditar que somente aquele ser poderá lhe completar, independente do que o livre arbítrio do outro decida, o carente afetivo já decidiu pelos dois: Eu gosto de você e vamos ficar juntos!

Vinicius de Moraes dizia “É impossível ser feliz sozinho”, mas ele está errado, você não conseguirá fazer ninguém feliz enquanto não conseguir ser feliz sozinho. Muitas pessoas, no auge de sua carência afetiva, acabando se entregando a relacionamentos vazios e rasos, apenas a fim de suprir sua enorme necessidade de atenção e ‘carinho’ (sim, entre aspas, pois em relacionamentos movidos a carência não há carinho de verdade), que muitas vezes sequer é suprida, pois a pessoa carente muitas vezes aceita o primeiro que lhe corresponder e acaba criando um nível de expectativa tal que o outro não consegue suprir. Assim nascem muitos relacionamentos abusivos. Uma pessoa que gera expectativas surreais sobre a outra e espera que a outra as cumpra/corresponda, mas não é assim que funciona.

Não se deve obrigar alguém a se relacionar com você só porque você gosta da pessoa. Se você realmente gosta de alguém, deve ter a empatia de entender caso ela não corresponda seu sentimento. Respeite a decisão do outro, você não deve obrigar o outro a algo que você mesmo não aceitaria, não pode tirar o direito do outro de escolher com quem quer se relacionar.

 

4 comentários em “A carência e a morte da empatia”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s